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TPM ou sobrecarga física e mental?

Já nos queimaram nas fogueiras e, ainda assim, resistimos bravamente.

Nosso pecado não era a magia, se fosse, as chamas se apagariam com algum feitiço, ou teríamos nos transformado em pássaros e voado para longe.

Nosso crime era sangrar todo mês, saber a arte da sedução, gerar vidas, ter intuição, saber a alquimia dos alimentos e das ervas. Enfim, nos queimaram não por sermos bruxas, mas por sermos mulheres!

Sobrevivemos, mas não incólumes. As características femininas continuaram a ser mal vistas e temidas por pura ignorância e desconhecimento, então passaram a usá-las como armas contra nós.

E, para facilitar, resumiram nossos amores e humores, quando indecifráveis, como “TPM”. Em tudo, para tudo e por tudo, se encerra a discussão nos acusando de estarmos na TPM.

Como se fosse uma insanidade temporária que justificaria nossa exacerbada sensibilidade, a capacidade de verter lágrimas e ignorar nossos argumentos, por mais razoáveis e fundamentados que sejam.

Sim, nós temos TPM. Somos um receptáculo de hormônios e ciclos para que possamos gerar outras vidas.

Certa vez li em uma camiseta: “se o homem parisse, aborto seria um direito”.  Se o homem menstruasse, a humanidade estaria extinta.

Não são todas, mas há mulheres que sofrem intensamente antes e durante a época da menstruação. Enxaqueca, inchaço, cólicas, hemorragias e até desmaios.

Olhe bem ao redor e me diga um homem que passaria ileso por isso todo mês, dos 12 ou 13 anos até os 48 ou 50 anos. Não perca seu tempo. Esse homem não existe.

Agora imagine a cena: a mulher acorda, levanta, respira fundo, faz o café da manhã, leva as crianças para a escola, chega no trabalho depois de enfrentar um trânsito caótico. Tem uma apresentação importantíssima para toda a diretoria nada amistosa, diga-se, projeto que, se aprovado, leva toda a sua equipe para outro nível. A cabeça explodindo de dor.

Mas antes, precisa pagar algumas contas, marcar a revisão do carro e consultas para a mãe. Engole um comprimido, arma-se do seu melhor sorriso e enfrenta a reunião. A apresentação é impecável, mas não há tempo para comemoração.

Aproveita o horário de almoço para resolver algumas outras questões urgentes. A cabeça agora lateja. Precisa enfrentar mais duas reuniões.

As crianças ligam pedindo autorizações para passeios da escola, o banco manda mensagem que seu cartão de crédito foi clonado e só indo à agência ela conseguirá resolver.

Volta para casa assim, carregando o mundo nas costas. Quer apenas um banho, um jantar e um pouco de afago. Mas a realidade é outra. As crianças não fizeram a lição ou tomaram banho. Estão famintas e é ela que precisa preparar a refeição. Enquanto descasca batatas, começa, silenciosamente, a chorar. As lágrimas descem pelo seu rosto como uma cascata.

O maridão, que estava refestelado no sofá tomando sua cervejinha, vendo o jogo de futebol da terceira divisão, entra na cozinha para perguntar que horas sairá o jantar, a vê chorando e pergunta:

— Ih, tá na TPM de novo?  

 

Eliane Bodart é ex-juíza de Direito, conselheira para relacionamentos amorosos
e sexuais e autora de seis livros, incluindo “Estilo Ageless: histórias da mulher +”

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