quinta-feira , 22 janeiro 2026
Alexandre Brito

ORA, POMBAS!!!

Começo a minha escrita, hoje, com uma interrogação: caro(a) leitor(a), você já viu ovo de pomba ou filhote de pombos? Eu confesso a vocês que nunca vi nenhum dos dois e que esse fato sempre me intrigou. Certa feita, numa roda de amigos, em um bar, num bate papo descontraído, levantei essa questão; e todos se surpreenderam com a minha pergunta e, mais surpresos ficaram ao se darem conta de que a minha preocupação tinha fundamento, uma vez que todos eles confessaram que também nunca tinham visto ovos e/ou filhotes de pombos.
E entre goles de cerveja vieram as conjecturas:
Será que a pomba é a única ave que não bota ovos?
Será que a pomba gesta tal qual uma mulher?
Será que filhote de pomba já nasce adulto?
Será que os ovos existem, são invisíveis aos olhos humanos e que os filhotes permanecem escondidos ou invisíveis até atingirem a fase adulta?
Foram várias conjecturas e nenhuma resposta que viesse a satisfazer as nossas inquietações. E foi então que alguém, entre um e outro gole de cerveja, lançou essa pergunta inquietante:
– Para que servem os pombos, além de infestar as praças públicas com o seu apetite voraz e de cagar os beirais dos nossos telhados e muros?
Por um momento, todos nós permanecemos calados, testas franzidas, olhares no vazio, buscando resposta para aquela ousada e desafiadora pergunta. Até que, de repente, um amigo que já estava discretamente embriagado, colocou-se de pé e gritou:
– Ora, pombas!!! Os pombos não servem para nada! Já nascem adultos para infernizarem a nossa vida! E acrescentou, em alto brado: – Morte aos pombos!
Nesse momento, excitados pelo álcool e pelo discurso do colega, mais cinco se levantaram e brandindo os punhos cerrados no ar, gritaram, com veemência: – Morte aos pombos!
Estava decretado, ali, sem nenhuma piedade, o fim de uma raça!
Então, de repente, eu fui tomado por um estremecimento estranho, como se tivesse sido escolhido para impedir o linchamento dos pombos da face da terra.
– Calem-se! Vocês não sabem o que estão dizendo! – ordenei com uma voz que não parecia ser minha. E, olhando para o alto, supliquei: – Pai, perdoa, eles não sabem o que dizem!
Todos se calaram, se assentaram e pousaram em mim olhos de assombro. E Valtinho, timidamente, me perguntou:
– Você levantou a questão e agora vem em defesa deles, Alexandre? O que te fez mudar de opinião?
Meus olhos brilhavam intensamente, quando eu respondi: – Não temos o direito de interferir na Santíssima Trindade!
Um deles balbuciou, trêmulo: – Você enlouqueceu?
E eu respondi: – Vocês estão se esquecendo que o Espírito Santo é representado por uma pomba?
Alguns piscaram freneticamente, tomados de espanto; três deles se persignaram. E um deles arrematou a conversa:
– Então está explicado! A pomba coloca os seus ovos e os choca, no infinito, e lá permanecem até ficarem adultos e descerem à terra como Espírito Santo!
– E a Pomba-Gira? – perguntou Ernesto, desconfiado.
– A Pomba-Gira é anjo que desobedeceu a Deus e foi expulsa do céu. – respondeu Fernando, com ares de filósofo.
– Se a pomba é a personificação do Espírito Santo, como explicar toda a sujeira e cagança? – perguntou Humberto, com os olhos vidrados.
– Ora, pombas!!! – respondeu, Valtinho, já com a voz pastosa. – É porque…
Nesse momento, uma pomba branca entrou no bar, pousou na mais alta prateleira e nos fitou com o seu olhar inquieto.
Como num passe de mágica, estremecemos, emudecemos e nos curvamos em reverência…
(Alexandre Brito – 25/11/2024)

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