Banquete de pobre

De repente, ela respirou fundo e disse: - Já tá tarde, vô trazê uma bacia com água pra módi ocê lavá os pé e drumi!

Não sei se deu saudade, ou se foi falta do que fazer; certo é que resolvi visitar a minha tia que morava em Engenheiro Corrêa, à época, distrito de Itabirito, cidade interiorana de Minas Gerais. Pensando bem, creio que a visitei mais por falta do que fazer, do que, propriamente, por saudade. Até porque a minha tia tinha fama de ser sovina, munheca de samambaia… Cheguei na poeirenta cidadezinha já quase anoitecendo. Bati palmas e gritei: – Ó de casa! – Ó de fora! Quem taí pod’imbora! – respondeu uma voz murcha, do interior do casebre. – Abre essa porta e deixa de ser grossa, tia! Sou eu, Alexandre, seu sobrinho… A porta se abriu, como num passe de mágica, e a minha tia surgiu, despenteada, roupa suja e poída, um sorriso bondoso nas bochechas pálidas. – Lixandi, qui bicho mordeu ocê? Que c’ocê faiz puraqui? – e abriu os braços, para o abraço. – A saudade, tia! A saudade! – menti e me deixei abraçar. Minhas narinas absorveram um cheiro azedo, de corpo que há muito tempo não se assentava numa bacia, para tomar um “banho geral”. – Cumé qui tá minha irmã e os mininus? – perguntou, por perguntar. – Tudo bem, tia! Tudo bem! – respondi, por responder. – E a senhora, como vai? – Ah! Tô aqui, esse caquinho de véia! Tô com dor nos quarto, açúcar no sangue, pressão lá em riba, dor nas junta, bexiga caída, ai, ai, ai… – e fez cara de pessoa desafortunada. – Mais… vamu intranu, mininu! Vamu intranu! – e me puxou pelo braço, pra dentro de sua pobre e desorganizada casa. Sentamos e ela começou a falar, falar, falar… não parava nem pra tomar um arzinho mais demorado. O tempo foi passando, a fome foi apertando, minha tia falando, falando… De onde eu estava, corri o olho pela cozinha e, para a minha angústia, não vi nenhuma panela sobre o fogão. A noite foi descendo e nos envolvendo com sua negra boca sem dentes; minha tia acendeu uma lamparina e o fedor de querosene empesteou o ar, minhas roupas, minha narina… Minha tia continuava falando e a luz da lamparina projetava a sua sombra na parede e a sua sombra se assemelhava a uma bruxa. De repente, ela respirou fundo e disse: – Já tá tarde, vô trazê uma bacia com água pra módi ocê lavá os pé e drumi! – e suas gengivas se arreganharam num sorriso mágico. – Tia… será que não faz mal lavar os pés… com o estômago vazio? – arrisquei a pergunta e coloquei toda a minha esperança na resposta dela. – Faiz nada, mininu! Seu falecido tio só lavava os pé de istambo vazio! Morreu módi cachaça, o disgramado! – e levantou, saiu e voltou pouco depois com uma bacia imunda e duas canequinhas de água, uma quente e outra fria. – Tempera no seu gosto, qui ieu vô arrumá sua cama e adispois vô drumi! B’asnoite, Lixandi! – disse e desapareceu, deixando-me totalmente entregue à minha fome. Tomei um banho de gato, dos joelhos pra baixo, e fui pra cozinha. Não achei nada pra comer. Revirei os armários, abri latas, panelas, tachos velhos e… nada! Só coisa crua e em pequena quantidade: arroz, feijão, macarrão… Desespero total! Meu estômago gemia, minhas vistas estavam ficando escuras. Foi aí que eu olhei para cima, para o telhado, e vi sobre o fogão a lenha, pendurado num arame enferrujado, um suculento pedaço de toucinho – certamente se defumando, pensei. Peguei o “maná descido do céu”, finquei num garfo e coloquei sobre as brasas que ainda ardiam no fogão. Tomei o cuidado de fechar a porta, para que o cheiro não acordasse a minha tia. Comi que me lambuzei. Tomei um copo de água, soltei um arroto – de puro contentamento – e fui dormir. Dormi como um justo. Acordei cedinho, com os gritos raivosos e estridentes de minha tia, vindos da cozinha: – Fidazunha! Fid’uma égua! Depravado! Ah, sieu pego esse disgramado desse gato qui cumeu o meu toicinho de isquentá e passá todo dia, pela manhã, na minha morróidia!

VOCABULÁRIO (Mineirês):
*Sovina, munheca de samambaia: pão-duro; pessoa que não gosta de gastar.
*Dor nos quarto: dor na região lombar
*Pressão lá em riba: pressão alta
*Istambo: estômago
*Morróidia: hemorróida
*Módi cachaça : por causa da cachaça

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