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Bolinhos de Chuva

Eu havia acabado de chegar em casa, morávamos nos fundos, bairro Célvia, perto da antiga Gurilândia. Meus irmãos pequeninos, brincando, minha mãe cozinhando, estava tudo normal, a vida continuava a mesma, eu adorava minha rotina, mas havia algo novo, uma sensação nova, de liberdade, minha mãe estava deixando eu sair de casa, sozinho. Apesar da pouca idade, naquela época, passear, ir pra escola sozinho, comprar pão, brincar na rua, era tranquilo, não tinha esta violência, o mundo não era tão cruel como assistimos hoje na televisão. Eu andava sozinho, livre, podia ir para vários lugares e fazendo parte destes passeios solitários, mas alegres e divertidos, com cheiro de aventura, eu tinha um destino que amava… Ir para casa da minha avó Dona Nola… Sozinho.

– Mãe, tá tudo bem aqui, tá tudo beleza, então eu vou voltar para casa da minha avó, de novo.

– Mas Roger, você veio de lá agorinha, como assim, vai dormir lá de novo?

– Vou mãe, eu gosto. Posso ir?

– Tá bom, meu filho. Vai com Deus.

Parti.

Olhos vibrantes, coração a mil, pernas voando, sol indo embora, o dia colorido quase perdendo sua luz, era de tardezinha e eu estava voltando para a casa da minha avó. O caminho fui eu que escolhi, e tinha certeza, seria mais uma aventura emocionante. Desci a rua Dr. José Cândido e virei em direção à avenida que dava acesso ao bairro Jardim Itaú. Andei mais um pouco e cheguei na rua do Hotel Dom Otto, a Rua Boanerges Silva. Querido leitor, nessa rua terminava o bairro Jardim Itaú e havia uma cerca enorme que cobria todo o terreno do outro lado. Hoje temos neste local o condomínio Rosa dos Ventos, o Názea 2, condomínios, mas antes, ali parecia uma montanha verde, linda, uma floresta viva. Eu podia seguir na rua e pegar a Thales chagas lá embaixo e seguir para a casa da minha avó, mas não, eu queria passar ali. Na cerca, já tinha até uma parte prontinha pra atravessar, tinha que ser esperto pois logo a frente havia uma descida. Desci. Estava no meio do pasto, do terreno, da montanha, eu chamava de floresta, enorme, sem fim. Os bois que passeavam eram os dragões com fome, os cupins gigantescos, eram bombas que caíram do céu, e tinha ele, o cachorro da casa branca. Já tinha medo de cachorro neste tempo e atravessar este terreno teria esse risco. O cachorro que cuidava das vacas. Sempre me assustava, e era uma corrida eletrizante, mistura de medo com aventura. Eu tinha um segredo, imaginava minha avó no fogão a lenha, preparando mais uma sessão de bolinhos de chuva, focava nesta imagem e começava a correr! Sem parar…ELE me viu!

Feroz, o cão corria na minha direção. Entre saltos, pulos e tropicões eu seguia na frente, mas a distância entre nós diminuía, estávamos na parte alta do morro, já cansado, era interminável, corria, corria, imagem da minha avó no fogão a lenha fazendo os bolinhos entre latidos e mais correria, mais subida, baixinho eu sorria, a sensação era única! Acabei o morro, respirei, olhei para frente, a casa da minha avó lá embaixo, olhei para trás, eram dois cachorros agora, o branco parou, parecia ter recebido uma ordem, tipo, deixa comigo! Sim, ele não corria mais, era outro, maior, um monstro, não entendi. Como aquele capeta apareceu ali? E era mais veloz! Peguei uma pedra, desci voando, não teria sucesso, mas corri. Sentindo o som dos passos da besta se aproximando eu desisti, peguei mais uma pedra, seria mordido, mas ele teria um machucado também, parei.

Ele subiu em cima de um cupim, olhou novamente pra mim, era a hora do salto mortal, deu mais um latido, (parecia um sorriso malicioso) e pulou. Fechei os olhos, escutei um grito! Sai daqui cachorro, desgraça! Um barulho de paulada, outro de cachorro chorando, saindo correndo, com medo.

– Rogerinho? (abri os olhos).

– Tio Laci? Nooooo tio, você viu o tamanho do bicho?

– Eu vi, tão deixando esse diabo aqui, só pra gente não jogar mais bola no pasto.

– Bença Tio. (podia ser obrigado Tio, Deus te pague tio, você me salvou tio).

– Deus te abençoe. “Vão bora”? Sua avó mandou buscar lenha, vai fazer “Bolinho de chuva”.

Amém.

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